Breve História do Recreio

PPP – 1. Breve História do Recreio Fundado em 1982, o Recreio começou como berçário, atendendo crianças de 0 a 2 anos, e também como um espaço recreativo frequentado por maiores de dois anos, após o período escolar. Aquelas crianças de idades diversas interagiam brincando, partilhando o mesmo espaço, aprendendo a dividir brinquedos, repertoriando uns aos outros com seus saberes e aproveitando um espaço garantido de cuidados e brincadeiras. As crianças do berçário cresceram, e foi de forma natural que, além de berçário e espaço recreativo, o Recreio se transformou em escola.

Hoje, o Recreio atende crianças de 4 meses a 6 anos e é uma escola dedicada exclusivamente ao segmento de Educação Infantil. Entendemos este período como especial e de suma importância para a formação de indivíduos íntegros, questionadores, cidadãos sensíveis e criativos, e acreditamos que o trabalho com crianças dessa faixa etária deve ser sempre delicado e respeitoso. A inserção de cada criança num grupo e na vida social tem de ser cuidada. Nessa etapa de formação, as crianças constroem saberes e atitudes que as marcarão por toda a vida.

Entram em contato com o mundo externo à sua família, vivenciam parcerias, disputas, conflitos, confrontando ideias e negociando opiniões.

Aprenderão regras de convívio social, a entender e respeitar limites, a realizar trocas e fazer acordos. Acolhidas em suas particularidades, as crianças descobrem a vida em grupo, a companhia de outros indivíduos para brincar e conhecer o mundo. Desde sempre, o estar e aprender juntos marcou o Projeto Político Pedagógico do Recreio.

Visão de Criança

“O nascimento nos introduz muito mais em um tempo no qual o futuro não é a consequência de um passado e no qual aquele que vem ao mundo não é dedutível do que já existe no mundo. Pelo fato de que constantemente nascem seres humanos no mundo, o tempo está sempre aberto a um novo começo: aberto à aparição de algo novo que o mundo deve ser capaz de receber, ainda que para recebê-lo tenha que ser capaz de renovar-se; aberto à vinda de algo novo ao qual o mundo deve ser capaz de colocar-se em questão” Jorge Larrossa,

Entendemos cada criança como um ser único que, contando com sua herança familiar e cultural, com recursos próprios e externos, é capaz de tecer seu percurso rumo à descoberta de si mesmo, de seu lugar no mundo e na humanidade. Este seu caminho é, portanto, absolutamente singular e criativo, e cada criança é autora de sua história e protagonista de seu desenvolvimento.

É a partir de suas experiências, de suas necessidades e interesses, de sua imaginação e de seus sonhos, que a criança – em encontro e relação com o mundo e pessoas que a cercam – tece laços de pertencimento que a ligam ao outro e à sua cultura. Neste percurso, ocupa seu lugar de cidadã capaz e competente, não só de compreender o mundo, mas de agir sobre ele, significá-lo e transformá-lo.

Nesse movimento, constrói a si própria, sua identidade pessoal e social, e assim pode transformar, como diz Marcos Ferreira Santos, “a humanidade de que é portador como potência, como possibilidades”. A criança, neste sentido, é uma esperança. Ao nascimento de cada criança, apresenta-se a possibilidade de descoberta de um novo mundo e de transformação da humanidade como a conhecemos.

Entendemos que este “devir”, “por vir” ou “vir a ser”, esta dimensão do ser humano como potência, não se opõe ao fato de a criança desde muito pequena já ser única e “inteira”; esta concepção se liga ao fato de ela estar experimentando, descobrindo e formando as bases de sua personalidade nestes anos iniciais, num percurso e de maneira completamente singular e enigmática.

A qualidade de seu ambiente e de suas relações são, portanto, muito importantes para que a criança possa viver suas experiências de forma própria, estabelecendo as raízes de sua personalidade em referências autênticas, fiéis a si mesma e não apenas em conformidade e em adequação ao que é esperado dela.

Se queremos que a criança possa, através de suas experiências e expressões, conhecer e desenvolver a si própria e seu papel no coletivo, esta possibilidade se ancora em relações de escuta, afeto, confiança e liberdade.

No mundo de hoje, a criança vive muitas vezes em espaços físicos restritos e num tempo fragmentado e regido de forma rígida e arbitrária, alheio ao tempo de sua experiência. Vive bombardeada de informações e estímulos, numa velocidade alucinante. Diante disto, precisamos ­— por mais paradoxal que seja — proteger e salvaguardar o seu direito de ser criança, de viver seu tempo de infância plenamente. Tempo de brincar, de experimentar o mundo, a si próprio e o outro, estabelecendo relações significativas e pessoais, criando com aquilo que lhe é dado viver. Nesse sentido, a brincadeira tem papel essencial no Projeto Político Pedagógico do Recreio.

Brincadeira e Cultura

O brincar é a linguagem essencial da criança, um gesto espontâneo de seu ser. Gesto que a coloca em relação consigo mesma, com o mundo, com as pessoas que a cercam e com a cultura e coletividade a que pertence. Brincando, a criança conhece e expressa seus interesses, seus desejos, suas preocupações e angústias, e as relações que estabelece com objetos, pessoas e com o que é conhecido e desconhecido por ela.

Na brincadeira a criança vivencia papéis, brinca com suas referências, coloca sua visão provisória sobre esse mundo, no qual ela tem voz e vez. Significar e ressignificar são palavras e ações imprescindíveis para o brincar. Nesta perspectiva entendemos a brincadeira como expressão que revela a estrutura e os conteúdos do pensamento brincante da criança, essencialmente singular e misterioso.

Como diz Winnicott, “(…)É no brincar, e somente no brincar, que o indivíduo, criança ou adulto, pode ser criativo e utilizar sua personalidade integral: e é somente sendo criativo que o indivíduo descobre o eu (self).”

Na brincadeira “tudo é possível”, seu desenrolar é imprevisível e, ainda que brincando a criança aprenda e exercite suas habilidades e competências (afetivas, corporais, cognitivas e sociais) – o que muitas vezes é fonte de imenso prazer e aprendizado -, isto acontece de forma natural e integrada. O que norteia a brincadeira é o desejo da criança, sua decisão e iniciativa em fazê-lo, e geralmente a alegria e o prazer que a acompanham.

“O brincar é aqui focado como uma expressão que nasce do corpo e se prolonga em movimentos de ‘sentido’. Nada é aleatório no repertório das brincadeiras das crianças, pois elas carregam dentro de si uma memória do passado e do futuro. Sua característica de imprevisibilidade, de sonho e também de inocência e alegria, aponta para uma possibilidade nova de construção do humano”. Maria Amélia Pinho Pereira.

A brincadeira tem, portanto, uma finalidade em si e precisa de um ambiente que respeite seu tempo, sua forma e que a alimente para que o fio narrativo da brincadeira possa se desenrolar em liberdade e inteireza. A criança e seus parceiros de brincadeira são autores na construção de suas experiências, de seus enredos, e são eles que decidem e postulam as regras de seu brincar, que é, para eles e para nós, “para lá de sério”.

O brinquedo, as brincadeiras e os jogos sempre fizeram parte da infância humana e revelam uma visão essencial do que é a infância. Segundo Gilles Brougère, o brincar é “(…) uma atividade que é construída social e culturalmente em cada meio social ou cultural”.

Brincando, as crianças revisitam as bases de sua tradição cultural, o que as conecta ao coletivo, ajudando na constituição de sua identidade social e nas relações de pertencimento. Não só reproduzem cultura mas, na qualidade de sujeitos capazes e autônomos que são, têm possibilidade de renová-la, trazendo para seu brincar suas próprias leituras, percepções e significações a respeito de tudo que as cerca; contribuem assim para a renovação e a ampliação do repertório cultural disponível.

“(…) Utilizando a palavra cultura, estou pensando na tradição herdada. Estou pensando em algo que pertence ao fundo comum da humanidade, e do qual todos nós podemos fruir, se tivermos um lugar para guardar o que encontramos. Interessa-me contudo, como tema paralelo, o fato de que em nenhum campo cultural é possível ser original, exceto numa base de tradição. (…)” Winnicott.

A brincadeira, neste sentido, é uma manifestação repleta de saberes sociais e, como tal, expressa a herança da tradição infantil da qual nossas crianças são portadoras, bem como a criação cultural de que são autoras. Acreditamos, portanto, que na escola de Educação Infantil é fundamental propiciar espaço para as diversas experiências que envolvam genuínas práticas culturais.

Cuidar e Educar

É papel da escola trabalhar o cuidar e o educar de forma integrada, pois desta visão decorre que, para favorecer o crescimento de um ser competente, autêntico e criativo, é nosso papel estabelecer uma relação de escuta afetiva com cada criança, buscando conhecer suas possibilidades, interesses e necessidades; suas percepções e indagações. Assim, caminhamos a seu lado, dando-lhe suporte e favorecendo que suas experiências e expressões possam ser vividas plenamente em um ambiente social e cultural que respeite seu direito de ser criança e lhe ofereça “alimento” para que seu desenvolvimento se dê de forma integrada.

Nesse sentido, as escolhas curriculares são de suma importância para que as experiências das crianças na escola sejam de fato significativas e para que a rotina escolar se dê de forma a garantir esta vivência integrada do cuidado e da aprendizagem.

É com esse intuito que buscamos trabalhar a rotina de forma a favoreçer as necessidades e interesses das crianças, garantindo a higiene, a alimentação, a brincadeira e o desenvolvimento dos demais projetos. A rotina dos grupos está em constante reavaliação, afinada com a dinâmica do individual e do coletivo, com o tempo (ritmo) de exploração de cada um e da criação coletiva.

O espaço da escola também é essencial para o desenvolvimento de nosso projeto e é considerado educador. Assim, deve ser ao mesmo tempo acolhedor e desafiador, instigando a criança a tocar, se aventurar, pesquisar e criar, e deve buscar gerar inúmeras experiências e aprendizagens. Entendemos que o espaço escolar declara seus valores. Desta forma, o espaço do Recreio favorece o desenvolvimento da autonomia, das relações interpessoais e das aprendizagens da criança, dando a ela possibilidade de realizar escolhas a partir de seus desejos e necessidades de experimentação, pesquisa e brincadeira.

A perspectiva até aqui apresentada baseia-se fundamentalmente numa relação de confiança, deslocando o professor do lugar daquele que ensina e guia a criança, para aquele que – carregado de seus saberes, suspendendo-os e duvidando destes quando necessário — estabelece com ela uma relação de respeito mútuo, de generosidade e parceria.

Este professor, em posição de escuta e sensibilidade, também se deixa contagiar e orientar pela criança, por suas perguntas, seus interesses e necessidades, e abre-se à possibilidade de redescobrir o mundo, encantado pela curiosidade, pelo olhar singular e pelo rico universo de fantasia e brincadeira tão característico da infância.

“Quando mantemos a especificidade da brincadeira, tem-se estes elementos que são a incerteza, a ausência de consequência e a decisão da iniciativa da criança e que definem este espaço aberto de experimentação, no qual o adulto não pode orientar muito, senão arrisca-se a destruir o interesse da brincadeira, ou seja, o fato da criança dominar o espaço de experiência.” Gilles Brougère.

Isto não diminui o trabalho ou a importância do professor, muito pelo contrário. Se na brincadeira se estabelece um espaço de liberdade e experimentação, o educador, por sua vez, assume uma postura de escuta, observação e testemunho sensível do gesto espontâneo e lúdico, para – munido destas observações e da constatação de interesses, saberes e necessidades das crianças brincantes – ser capaz de contribuir com este brincar, refletindo sobre e planejando sua prática.

Como afirma Renata Meirelles, “Não se trata de um espontaneismo ingênuo no qual vigora o afastamento do educador para dar espaço ao laissez faire, ao fazer por fazer, como se fosse suficiente conceder às crianças a oportunidade de brincarem livres, acreditando que num passe de mágica, todas as necessidades delas seriam supridas.(…)” Assim, além da observação e escuta sensível ao brincar espontâneo das crianças, organizar e planejar espaços, tempos e materiais para estas brincadeiras, bem como – em momentos que não os da brincadeira – pesquisar, selecionar e apresentar nosso repertório cultural de forma adequada e articulada às questões das crianças; são ações fundamentais da prática do educador. Ações estas que possibilitam ampliação e aprofundamento do repertório simbólico do grupo.

Desta forma, se estes conteúdos disponibilizados por nossa cultura (pela escola, por educadores e por outras crianças de suas relações) fizerem de fato sentido para elas, as crianças terão — por conta própria — oportunidade de integrá-los e ressignificá-los em seu brincar, ampliando e aprofundando seus saberes.

Projeto Interação

“Nós quatro,

Eu com ela,

Eu sem ela,

Nós por cima,

Nós por baixo”

(Brincadeira tradicional)

Em toda a história do Recreio, a perspectiva da interação esteve presente no cotidiano da escola, e podemos afirmar que é fundamental e constituinte do trabalho pedagógico.

Ao se relacionarem, as crianças se dão conta de que não existe um saber único, tampouco uma única forma de viver e entender as coisas. Descobrem que cada um tem o seu jeito, que pontos de vista podem ser diferentes, que verdades não são únicas nem fixas e que as pessoaspodem interpretar os mesmos fatos de formas variadas.

De acordo com Myriam Nemirovsky, “(…) a interação contribui para que a criança possa tomar consciência do ponto de vista dos demais, para aprender a negociar e, se necessário, a renunciar a suas próprias posições, ou a postergar a satisfação de seus interesses em benefício de um objetivo coletivo (…), assim a criança estabelece uma série de laços inter-relacionados que conduzem a uma verdadeira construção conjunta: explora, propõe, retifica, integra aquilo que diz o colega, regula suas ações, apresenta argumentos a suas propostas para que o outro as entenda etc., tudo isso com o objetivo de alcançar uma meta comum”.

Nesse sentido, qualificam-se os momentos de interação (inter-idades e intra-idades) como fundamentais para a constituição do sujeito. Terezinha Rios, por exemplo,diz que, baseada nos variados papéis que desempenham socialmente, a identidade conjuga características únicas dos indivíduos às circunstâncias em que se encontram. Segundo a perspectiva sócio-histórica, é através da relação do sujeito com o mundo que o indivíduo constrói sua identidade. a qual está sempre em movimento. Ao falar sobre a constituição social do homem, João Carlos Martins afirma: “… como seres humanos e, portanto, ontologicamente sociais, passamos a construir a nossa história só e exclusivamente com a participação dos outros e da apropriação do patrimônio cultural da humanidade”.

Assim, considerando a importância das trocas e das relações para a formação de um indivíduo íntegro, atento a si e a seu entorno, procuramos viabilizar, no cotidiano escolar, diferentes situações e práticas que envolvem interações. Para além das que já vivem no grupo de referência, as crianças são desafiadas a viver momentos de encontros com outros grupos, que podem ocorrer tanto em situações de exploração e brincadeira nos espaços externos da escola ou de alimentação (almoço e lanche), quanto em atividades especialmente planejadas e mediadas pelos educadores dos grupos envolvidos.

As situações que envolvem interação (inter e intra-idades) fazem parte da dinâmica de trabalho dos grupos e são planejadas de modo que as crianças ajam e pensem em conjunto, produzam, pesquisem, brinquem e trabalhem juntas, além de cuidarem umas das outras, o que contribui para o aprendizado e crescimento de todas.Acreditamos que desta forma as relações se dão entre iguais, mas entre iguais heterogêneos que, sob condições adequadas, criadas e intermediadas pelos adultos, propiciam oportunidades de: identificação, diferenciação, partilha, construção da autonomia e vivência de situações de confronto, desestabilização e desafio. Elementos essenciais aos avanços nos campos social, intelectual e moral.

A interação entre as crianças propicia que as relações se desenvolvam, e que as crianças se descubram, percebendo afinidades, possibilidades e recursos, usando-os nas mais variadas situações. Terezinha Rios afirma que “a identidade é algo em permanente construção e se constrói na articulação com a alteridade, implica o reconhecimento recíproco”. E talvez essa seja uma das maiores riquezas desse projeto, uma vez que nos momentos de interação as crianças aprendem, e muito, umas com as outras. Nossa experiência mostra que, independente da idade, ao entrarem em contato com brincadeiras, explorações, recursos e repertórios umas das outras, as crianças descobrem ou redescobrem formas de explorar, de se relacionar, de pesquisar e de brincar.

É parte primordial deste trabalho favorecer o desenvolvimento nas crianças de uma série de posturas e atitudes, tais como:

curiosidade, participação ativa e interesse em conhecer, aprender e partilhar (pesquisa, exploração e experimentação);
interesse e sensibilização pelo outro;
capacidade de relacionarem-se de forma respeitosa, afetuosa, colaborativa e solidária;
percepção e aceitação de diferenças e semelhanças;
escolha e autonomia frente a tarefas e desafios;
atenção a direitos e deveres.

Entendemos que os momentos de interação inter-idades são especialmente ricos nesse sentido. Assim, na história do Recreio, a partir de 2002, deu-se ênfase ainda maior a estes, intensificando os que já existiam e diversificando cada vez mais potenciais situações interativas: novas modalidades e diferentes tipos de agrupamento foram intencionalmente planejados e passaram a integrar a rotina dos grupos.

O projeto interação e a reflexão sobre este, somadas a trocas e estudos de teóricos da infância, reforçaram a abordagem defendida pelo Recreio e seu Projeto Político Pedagógico avançou nesta direção. A ponto de, quando foi necessário a escola mudar de endereço em julho de 2013, planejarmos e organizarmos a distribuição de salas e pátios, de forma a garantir ainda mais as relações inter-idades. Atualmente, os espaços frequentados pelos grupos são mais integrados: próximos uns dos outros e também com aberturas e transparências que favorecem que as crianças e adultos se vejam e se relacionem, mesmo não estando no mesmo local. A proposta é que as criançasexperimentem as interações mesmo quando estas não estão programadas na rotina.

As crianças não conseguiriam viver o processo de interação em sua essência, se este não acontecesse simultaneamente com os educadores e demais funcionários. O Projeto Interação é vivido por todas as crianças, educadores e funcionários do Recreio, todas as crianças e adultos são da escola, atuando, interferindo e colaborando para a construção de saberes e formação de cidadãos.

No decorrer de sua história, o trabalho e o papel dos educadores também foi se modificando. O desenvolvimento de projetos como Interação e os pilares do Projeto Político Pedagógico do Recreio – garantia da infância, importância e valorização da brincadeira, respeito à diversidade, escola como um lugar de cuidados e educação –são base para definirmos o papel e as características do educador do Recreio.

Acreditamos no educador do Recreio como aquele que olha, tece, acolhe, acompanha e não centraliza; que promove o diálogo e que, através de seu olhar atento, é capaz de desvelar as experiências e aprendizagens das crianças. Nilson José Machado faz uma definição do educador que acreditamos combinar muito com nossa visão: “(…) o professor é mediador e tecelão, é cartógrafo e fabuloso. Ou, em termos menos enigmáticos: o professor é um mediador de relações, tecelão de significações, cartógrafo de relevâncias, e sobretudo, um contador de histórias, não quaisquer histórias, mas as de natureza fabulosa”.

Nesse sentido o educador para participar de um projeto desafiador como o do Recreio, precisa fazer reflexões a respeito da prática (que envolve planejamento e replanejamento); precisa trocar, sentir-se acolhido e fazer parte de uma equipe.

A partir dessa premissa, os vínculos, a troca do olhar e de informações entre a equipe são aspectos fundamentais para o acompanhamento das crianças. Para tanto, o projeto de formação dos educadores visa possibilitar trocas com os pares e a coordenação para garantir a unidade de trabalho (afinal de contas, embora façam parte de um grupo curricular, as crianças são da escola!).

Garantimos que os grupos curriculares tenham seus educadores como referência principal, assim como têm garantidas sua configuração, identidade e particularidades mas, com o Projeto Interação contam com mais adultos e colegas com quem interagir e trocar. Fato é, que essa forma de pensar e organizar o currículo do Recreio, trouxe a necessidade de aprofundar a troca de saberes e a parceria entre professores. Assim como as crianças, os educadores são da escola.

A regularidade e a maior frequência das atividades de interação inter-idades, abriram novos caminhos na comunicação entre as crianças e entre os educadores do Recreio, contribuindo para transformar a escola em uma comunidade educativa, em que todos contam uns com os outros para aprender e colaboram, na medida de suas possibilidades, com a aprendizagem dos demais.

Metodologia

O Recreio é uma escola que reconhece e fortalece o protagonismo da criança. “As formas como ela vivencia o mundo, constrói conhecimentos, interage, se expressa, servem de base e de fonte de decisões em relação aos fins educacionais, às metas e metodologia de trabalho da escola” (Zilma de Oliveira). Diante das experiências vividas pela criança e pelo grupo, o olhar e a escuta sensíveis do educador geram escolhas de conteúdos e de didáticas, ligadas às necessidades individuais e coletivas, também relacionadas à faixa etária.

Essas escolhas consideram o tempo e o espaço das experiências e vivências das crianças e são organizadas no planejamento e na rotina de todos os grupos, contemplando também: o livre brincar, os momentos de interação, as linguagens (ligadas às áreas de trabalho) e os cuidados (alimentação, higiene e sono), visando que as crianças possam estabelecer ligações e articulações entre suas diferentes experiências.

As crianças, em cada ciclo do seu desenvolvimento e a partir de sua subjetividade, refletem e tomam consciência do mundo de diferentes maneiras. Quanto menores são, suas representações e noções sobre o mundo estão associadas diretamente aos conhecimentos práticos e às experiências realizadas sobre seu entorno. À medida que crescem novos recursos são descobertos e aprimorados.

Entendemos a forma da criança atuar como sendo uma “ação pesquisadora”. Seu corpo e seus sentidos são a porta para o mundo. É através da visão, audição, olfato, tato, paladar, das sensações e do movimento, que ela descobre cada detalhe ao redor. Apropriando-se do seu meio, passa a entregar-se, a confiar e a conhecer muito mais o ambiente e pessoas à sua volta. O crescente domínio e uso da linguagem, assim como a capacidade de interação, possibilitam que seu contato com o mundo se amplie, sendo cada vez mais mediado por representações e significados construídos culturalmente. À medida que se apropria e sistematiza conhecimentos, a criança constrói e reconstrói noções que favorecem mudanças no seu modo de pensar. Isto permite que ocorra um processo de constante confrontação entre suas “hipóteses” e as explicações e os conhecimentos culturalmente difundidos.

Por meio da possibilidade de formular suas próprias questões, buscar respostas, experimentar possibilidades, imaginar soluções, expressar suas opiniões e concepções de mundo, confrontar seu modo de pensar com o de outras pessoas e com o pensamento científico, a criança poderá refutar e reformular explicações para a pluralidade e diversidade de fenômenos e acontecimentos do mundo social e natural, construindo conhecimentos cada vez mais elaborados.

Essa forma de apropriação do conhecimento, de si e do mundo, se dá através de experiências motoras, afetivas e cognitivas, que revelam e firmam o desenvolvimento humano, que é social e integrado.

“O motor, o afetivo, o cognitivo, a pessoa, embora cada um desses aspectos tenha identidade estrutural e funcional diferenciadas, estão tão integrados que cada um é parte constitutiva dos outros. Sua separação se faz necessária apenas para a descrição do processo. Uma das consequências dessa interpretação é de que qualquer atividade humana sempre interfere em todos eles. Qualquer atividade motora tem ressonâncias motoras e cognitivas: toda operação mental tem ressonâncias afetivas e motoras. E todas essas ressonâncias têm um impacto no quarto conjunto: a pessoa.” Mahoney.

Como dito, no Recreio acreditamos e prezamos o tempo e o ritmo próprios de cada criança diante de suas pesquisas, conquistas e desafios. Também se entende que, dentro da diversidade das crianças, há aquelas que precisam de estratégias diferenciadas e específicas para conseguir se desenvolver; chegando a necessitar, em alguns casos, de um acompanhante educacional presente de forma mais próxima e constante, auxiliando-as na integração com o grupo e na interação com outros grupos, garantindo o seu espaço de expressão, escuta e entendimento do vivido. Além disso, sendo necessário, estabelecemos, trocas com outros profissionais que acompanhem as crianças.

Pesquisas e Projetos

Projeto é uma modalidade organizativa do trabalho pedagógico, especialmente potente no sentido de favorecer o estudo, a pesquisa de um tema escolhido a partir dos interesses e também das necessidades das crianças, possibilitando tanto trabalhar conteúdos, quanto intervir na constituição e dinâmica do grupo. O trabalho com Projetos promove o protagonismo da criança e contempla seu desenvolvimento, a articulação de suas experiências, seus saberes e os conhecimentos culturais da sociedade.

No Recreio há projetos previstos de acordo com a faixa etária e outros emergentes — que nascem do cotidiano das crianças — ambos interessantes para a faixa etária e / ou para atender a necessidades do grupo. Para que as crianças estabeleçam relações entre saberes, é importante partir de seus conhecimentos, possibilitando que se percebam como coparticipantes no processo de construção de conhecimento. Os aprendizados servem de referência para outras situações, permitindo generalizações de ordens diversas. Criam-se assim saberes em rede, construídos através de narrativas, debates, pesquisas de materiais culturalmente relevantes, tendo o educador o papel de apoiar o caminho de descobertas, encadeando “feixes” de interesse e estudo das crianças.

“Construir o conhecimento seria, pois, como construir uma grande rede de significações, onde os ‘nós’ seriam os conceitos, as noções, as ideias, em outras palavras, os significados e os fios que compõem os nós seriam as relações que estabelecemos entre algo em que concentramos nossa atenção e as demais ideias, noções ou conceitos; tais relações condensam-se em feixes, que, por sua vez, articulam-se em uma grande rede.” Nilson Machado.

Como apresentado, em nossa proposta pedagógica o educador tem o papel de apoiar as pesquisas das crianças, oferecendo repertórios, organizando experiências e dando subsídios para que avancem nos seus conhecimentos, fazendo com que os projetos e as pesquisas sejam vivenciados de forma sensível, lúdica e também empírica, revelando o que as crianças estão descobrindo e querendo saber.

Para acompanhar as pesquisas das crianças, ressaltar suas questões e descobertas, para decidir caminhos que levem em direção às metas escolhidas, o educador utiliza, além da observação, registros e documentações. Estes recursos procuram revelar o que querem vivenciar e desvendar, as experiências e o percurso vivido pela criança e pelo grupo, diálogos e questões levantadas.

A documentação, feita através da escrita do educador (observações pessoais e como escriba do grupo), ou por fotos, imagens e filmagens, se constrói a partir dos registros dos processos vividos pelas crianças e os registros de acompanhamento do educador — como a criança viu, como o educador viu, como o educador interpreta o que a criança viu.

Documentar é, nesse sentido, meio de valorização das aprendizagens das crianças, atestando seus saberes e criações, garantindo que seus reais interesses sejam respeitados e que os conhecimentos estudados não sejam arbitrários e desinteressantes. A documentação é fonte constante de reflexão e de pistas que qualificam as decisões educativas.

A postura do educador implicada na escuta, observação e pesquisa da criança, é alimentada no Recreio por um projeto de formação composto por encontros sistemáticos entre educadores, em diferentes formatos e com distintas finalidades. Podem ser em grupo ou individuais, com a Coordenação e ou Direção, sempre com o objetivo de refletir e aprimorar o olhar e o trabalho com a criança. Nesses fóruns abre-se espaço e se instiga o educador a partilhar e avaliar sua prática, projetando, a partir dos estudos e reflexões, suas metas de trabalho, alinhadas com o Projeto Político Pedagógico (PPP) do Recreio. As novas descobertas e experiências são fundamentais para a validação e atualização constante das bases do PPP, garantindo o avanço vivo na direção de boas experiências com as crianças.

Projeto Além Muros

Para nós, um dos focos do trabalho do Recreio é promover atividades e eventos para além dos muros da escola, ampliando a visão das crianças sobre a cidade e o mundo em que habitam.

Conhecer o entorno da escola, andar na rua, rever e descobrir caminhos, observar, brincar e reconhecer a praça como espaço coletivo. Perceber-se como agente de transformação, avaliando necessidades, planejando intervenções, modificando e ocupando o espaço, transformando-o. Essa é uma experiência que as crianças dos grupos dos maiores vivem em projetos inter-idades que acontecem no Recreio.

Caminhar pelo bairro, conhecer pessoas diferentes e se relacionar com elas, observar construções diversas, visitar a feira-livre, reconhecer e conversar com a vizinhança, ou ainda colher pedrinhas e folhinhas na praça ou pelos caminhos, proporcionam às crianças, tanto as menores quanto as maiores, vivências muito ricas e aprendizados únicos.

Além de se perceberem como parte de uma comunidade maior do que a da escola, as crianças têm, através do projeto Além Muros, oportunidade de experimentar, viver e aprender diversos conteúdos. A cada saída, percebemos que o olhar delas para o entorno do Recreio se modifica e sua visão se amplia. Brincar, conhecer, explorar e interferir no entorno da escola passa a ser possível.

Além disso a relação das crianças entre si e a relação delas com os diferentes educadores que as acompanham nesses passeios, se diversificam, se aprofundam e se diferenciam por ocorrerem num espaço que não o do Recreio.

O olhar da comunidade ao redor do Recreio também se modifica e se amplia. Temos ouvido comentários tipo: “Ah, o Recreio, aquela escola que passeia com as crianças pelo bairro”, “As crianças da escola fizeram uma intervenção linda na praça!”, “Nossa! Crianças tão pequenas andando tudo isso!”

E assim seguimos, ocupando espaços e transformando olhares e visões. Não é à toa que nossa Festa Junina tem acontecido na Praça Waldir Azevedo. Aos poucos, o Recreio vive também o entorno de seu espaço físico.

Parceria Escola-Família

O ingresso da criança na escola de Educação Infantil representa, na maioria das vezes, a primeira separação da criança de seu ambiente e vínculos familiares. Esta condição carrega consigo uma série de especificidades e cuidados que tornam a parceria entre a família e o Recreio essencial para o desenvolvimento do trabalho. Nesse momento, a comunicação entre os familiares e os profissionais que acompanham a criança na escola, é fundamental. Saber a história da criança, suas particularidades, necessidades e interesses, favorece acolhimento e atendimento mais individualizados e profissionais.

A nosso ver, o processo de entrada na escola acontece antes mesmo de a criança passar a frequentá-la efetivamente. Por isso, cuidamos do acolhimento às famílias antes mesmo de seu início no Recreio, para que o período de adaptação e a passagem do ambiente familiar ao escolar sejam vividos de maneira respeitosa. Assim, antes de a criança começar a frequentar o Recreio, há uma entrevista inicial com o intuito de conhecer sua rotina, sua vida e suas particularidades. A partir destes dados, família e escola pensam juntas o desenrolar do período de adaptação — que é realmente particular a cada caso. Esta troca contribui também para que as experiências e aprendisagens prévias da criança possam ser consideradas desde o início de nosso trabalho pedagógico junto a ela. Durante o período de adaptação, um dos familiares ou um adulto de referência participa do processo, e vamos fazendo ajustes conjuntamente, para que tudo transcorra de maneira fluida e a entrada na escola seja uma conquista.

Mesmo depois de concluído o período de adaptação, a comunicação família-escola continua sendo importante para o acompanhamento do trabalho. A troca de informações e de vivências se dá a partir do contato cotidiano dos responsáveis pela criança com a equipe pedagógica, e através de relatórios e reuniões presenciais, individuais e/ou coletivas. Reuniões sobre questões relacionadas a aspectos do desenvolvimento da criança são realizadas entre a coordenação e os responsáveis e podem ser solicitadas por nós ou pelos familiares.

A escola, como projeto vivo que é, está em constante reflexão e atualização, por isso a participação dos familiares com observações e sugestões é sempre bem-vinda. A troca de informações e observações contribui para maior entendimento e melhor acompanhamento de cada criança, bem como para ajustes na parceria entre todos aqueles que participam da comunidade escolar e que atuam na educação das crianças.

É também neste sentido que o trabalho desenvolvido nos diferentes grupos é relatado e revelado às famílias por diversos meios: eventos e encontros coletivos e culturais; do contato com as produções das crianças e seus grupos; das atividades e brincadeiras que acontecem no início e final do dia; da partilha em reuniões coletivas do grupo; por relatos de atividades ou de acontecimentos especiais.

Ainda quanto à parceria com as famílias, todas estão convidadas a participar do cotidiano da escola, através dos projetos do grupo — trazendo e compartilhando materiais, suas histórias e experiências; da reflexão de práticas e projetos de trabalho; de reuniões coletivas do grupo. Há ainda o espaço propiciado nos eventos do Centro de Encontros — criado para promover, no período noturno ou aos sábados, discussões e reflexões sobre temas pertinentes e fundamentais para a formação e atendimento às crianças.

Além do mencionado acima, incentivamos as famílias a participar de forma atuante dos eventos e festas do Recreio ao longo do ano: podendo organizar, a partir de seus conhecimentos e habilidades, oficinas para nossa comunidade nos Sábados de Atividades; criando junto com as crianças enfeites para a Festa Junina, além de partilharem conosco suas vivências sobre essa festa e contribuírem para um grande lanche junino coletivo; apresentando-se no Sarau do Fim de Tarde Cultural; refletindo sobre os projetos desenvolvidos nos diferentes grupos nas instalações da Mostra Cultural.

Dessa forma, a participação da família em nosso cotidiano, mais do que bem-vinda, é fundamental! É através dela e da prática do diálogo e compartilhamento de responsabilidades, que podemos desenvolver esse trabalho com nossas crianças.