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PPP – 5. Projeto Interação

“Nós quatro,

Eu com ela,

Eu sem ela,

Nós por cima,

Nós por baixo” 

(Brincadeira tradicional)

 Em toda a história do Recreio, a perspectiva da interação esteve presente no cotidiano da escola, e podemos afirmar que é fundamental e constituinte do trabalho pedagógico.

Ao se relacionarem, as crianças se dão conta de que não existe um saber único, tampouco uma única forma de viver e entender as coisas. Descobrem que cada um tem o seu jeito, que pontos de vista podem ser diferentes, que verdades não são únicas nem fixas e que as pessoas  podem interpretar os mesmos fatos de formas variadas. 

De acordo com Myriam Nemirovsky, “(...) a interação contribui para que a criança possa tomar consciência do ponto de vista dos demais, para aprender a negociar e, se necessário, a renunciar a suas próprias posições, ou a postergar a satisfação de seus interesses em benefício de um objetivo coletivo (...), assim a criança estabelece uma série de laços inter-relacionados que conduzem a uma verdadeira construção conjunta: explora, propõe, retifica, integra aquilo que diz o colega, regula suas ações, apresenta argumentos a suas propostas para que o outro as entenda etc., tudo isso com o objetivo de alcançar uma meta comum”.

Nesse sentido, qualificam-se os momentos de interação (inter-idades e intra-idades) como fundamentais para a constituição do sujeito. Terezinha Rios, por exemplo,  diz que, baseada nos variados papéis que desempenham socialmente, a identidade conjuga características únicas dos indivíduos às circunstâncias em que se encontram. Segundo a perspectiva sócio-histórica, é através da relação do sujeito com o mundo que o indivíduo constrói sua identidade. a qual está sempre em movimento. Ao falar sobre a constituição social do homem, João Carlos Martins afirma: “... como seres humanos e, portanto, ontologicamente sociais, passamos a construir a nossa história só e exclusivamente com a participação dos outros e da apropriação do patrimônio cultural da humanidade”. 

Assim, considerando a importância das trocas e das relações para a formação de um indivíduo íntegro, atento a si e a seu entorno, procuramos viabilizar, no cotidiano escolar, diferentes situações e práticas que envolvem interações. Para além das que já vivem no grupo de referência, as crianças são desafiadas a viver momentos de encontros com outros grupos, que podem ocorrer tanto em situações de exploração e brincadeira nos espaços externos da escola ou de alimentação (almoço e lanche), quanto em atividades especialmente planejadas e mediadas pelos educadores dos grupos envolvidos.

As situações que envolvem interação (inter e intra-idades) fazem parte da dinâmica de trabalho dos grupos e são planejadas de modo que as crianças ajam e pensem em conjunto, produzam, pesquisem, brinquem e trabalhem juntas, além de cuidarem umas das outras, o que contribui para o aprendizado e crescimento de todas.  Acreditamos que desta forma as relações se dão entre iguais, mas entre iguais heterogêneos que, sob condições adequadas, criadas e intermediadas pelos adultos, propiciam oportunidades de: identificação, diferenciação, partilha, construção da autonomia e vivência de situações de confronto, desestabilização e desafio. Elementos essenciais aos avanços nos campos social, intelectual e moral. 

A interação entre as crianças propicia que as relações se desenvolvam, e que as crianças se descubram, percebendo afinidades, possibilidades e recursos, usando-os nas mais variadas situações. Terezinha Rios afirma que “a identidade é algo em permanente construção e se constrói na articulação com a alteridade, implica o reconhecimento recíproco”. E talvez essa seja uma das maiores riquezas desse projeto, uma vez que nos momentos de interação as crianças aprendem, e muito, umas com as outras. Nossa experiência mostra que, independente da idade, ao entrarem em contato com brincadeiras, explorações, recursos e repertórios umas das outras, as crianças descobrem ou redescobrem formas de explorar, de se relacionar, de pesquisar e de brincar.  

É parte primordial deste trabalho favorecer o desenvolvimento nas crianças de uma série de posturas e atitudes, tais como:

  • curiosidade, participação ativa e interesse em conhecer, aprender e partilhar (pesquisa, exploração e experimentação);
  • interesse e sensibilização pelo outro;
  • capacidade de relacionarem-se de forma respeitosa, afetuosa, colaborativa e solidária;
  • percepção e aceitação de diferenças e semelhanças;
  • escolha e autonomia frente a tarefas e desafios;
  • atenção a direitos e deveres.

Entendemos que os momentos de interação inter-idades são especialmente ricos nesse sentido. Assim, na história do Recreio, a partir de 2002, deu-se ênfase ainda maior a estes, intensificando os que já existiam e diversificando cada vez mais potenciais situações interativas: novas modalidades e diferentes tipos de agrupamento foram intencionalmente planejados e passaram a integrar a rotina dos grupos.

O projeto interação e a reflexão sobre este, somadas a trocas e estudos de teóricos da infância, reforçaram a abordagem defendida pelo Recreio e seu Projeto Político Pedagógico avançou nesta direção. A ponto de, quando foi necessário a escola mudar de endereço em julho de 2013, planejarmos e organizarmos a distribuição de salas e pátios, de forma a garantir ainda mais as relações inter-idades. Atualmente, os espaços frequentados pelos grupos são mais integrados: próximos uns dos outros e também com aberturas e transparências que favorecem que as crianças e adultos se vejam e se relacionem, mesmo não estando no mesmo local. A proposta é que as crianças  experimentem as interações mesmo quando estas não estão programadas na rotina. 

As crianças não conseguiriam viver o processo de interação em sua essência, se este não acontecesse simultaneamente com os educadores e demais funcionários. O Projeto Interação é vivido por todas as crianças, educadores e funcionários do Recreio, todas as crianças e adultos são da escola, atuando, interferindo e colaborando para a construção de saberes e formação de cidadãos. 

No decorrer de sua história, o trabalho e o papel dos educadores também foi se modificando. O desenvolvimento de projetos como Interação e os pilares do Projeto Político Pedagógico do Recreio - garantia da infância, importância e valorização da brincadeira, respeito à diversidade, escola como um lugar de cuidados e educação –  são base para definirmos o papel e as características do educador do Recreio. 

Acreditamos no educador do Recreio como aquele que olha, tece, acolhe, acompanha e não centraliza; que promove o diálogo e que, através de seu olhar atento, é capaz de desvelar as experiências e aprendizagens das crianças. Nilson José Machado faz uma definição do educador que acreditamos combinar muito com nossa visão: “(...) o professor é mediador e tecelão, é cartógrafo e fabuloso. Ou, em termos menos enigmáticos: o professor é um mediador de relações, tecelão de significações, cartógrafo de relevâncias, e sobretudo, um contador de histórias, não quaisquer histórias, mas as de natureza fabulosa”.  

Nesse sentido o educador para participar de um projeto desafiador como o do Recreio, precisa fazer reflexões a respeito da prática (que envolve planejamento e replanejamento); precisa trocar, sentir-se acolhido e fazer parte de uma equipe.   

A partir dessa premissa, os vínculos, a troca do olhar e de informações entre a equipe são aspectos fundamentais para o acompanhamento das crianças. Para tanto, o projeto de formação dos educadores visa possibilitar trocas com os pares e a coordenação para garantir a unidade de trabalho (afinal de contas, embora façam parte de um grupo curricular, as crianças são da escola!).

Garantimos que os grupos curriculares tenham seus educadores como referência principal, assim como têm garantidas sua configuração, identidade e particularidades mas, com o Projeto Interação contam com mais adultos e colegas com quem interagir e trocar. Fato é, que essa forma de pensar e organizar o currículo do Recreio, trouxe a necessidade de aprofundar a troca de saberes e a parceria entre professores. Assim como as crianças, os educadores são da escola.

A regularidade e a maior frequência das atividades de interação inter-idades, abriram novos caminhos na comunicação entre as crianças e entre os educadores do Recreio, contribuindo para transformar a escola em uma comunidade educativa, em que todos contam uns com os outros para aprender e colaboram, na medida de suas possibilidades, com a aprendizagem dos demais.